2015/11/30

O TERRAÇO DO OUTONO É AZUL (A) MAR!


Autumn Effect at Argenteuil - Claude Oscar Monet



O TERRAÇO DO OUTONO É AZUL (A) MAR!


O terraço do outono tem portões
Alados, mundo que espreita beleza;
Nuvens singelas que pelo céu beijam 
Acrescem ao mar uma outra natureza, 
Passeiam-se pelos espelhos a pasmar!

A vida, uma longevidade inigualável;
Árvores sombreiam passerelles de oceanos
E pelas pregas salgadas de tantas ondas 
Pisam o céu, (o mar) o azul inatingível,
Irrigam-se as almas de todo o universo!

Tais enseadas, vistas largas de humanos
Que dignificam a vida, flutuando 
Real e concreto atingem o espaço não pensado;
A Imaginação aos meandros da estação 
Germina ventilações que arejam corações!

O terraço do outono tem uno vento,
Galáxias onde abundam tantas vidas;
Fisiologias mescladas de tons terra e pigmentadas 
A azul celeste desenhando orbitas sem conto,
Tais as causas da poesia que verso!

O terraço do outono é azul (a) mar!

© RÓ MAR

VAGA, NO AZUL AMPLO SOLTA




Vaga, no Azul Amplo Solta


Vaga, no azul amplo solta, 
Vai uma nuvem errando. 
O meu passado não volta. 
Não é o que estou chorando. 

O que choro é diferente. 
Entra mais na alma da alma. 
Mas como, no céu sem gente, 
A nuvem flutua calma. 

E isto lembra uma tristeza 
E a lembrança é que entristece, 
Dou à saudade a riqueza 
De emoção que a hora tece. 

Mas, em verdade, o que chora 
Na minha amarga ansiedade 
Mais alto que a nuvem mora, 
Está para além da saudade. 

Não sei o que é nem consinto 
À alma que o saiba bem. 
Visto da dor com que minto 
Dor que a minha alma tem. 

Fernando Pessoa, Cancioneiro

O MEU OLHAR AZUL COMO O CÉU


O Meu Olhar Azul como o Céu


O meu olhar azul como o céu 
É calmo como a água ao sol. 
É assim, azul e calmo, 
Porque não interroga nem se espanta... 
Se eu interrogasse e me espantasse 
Não nasciam flores novas nos prados 
Nem mudaria qualquer cousa no sol de modo a ele ficar mais belo... 
(Mesmo se nascessem flores novas no prado 
E se o sol mudasse para mais belo, 
Eu sentiria menos flores no prado 
E achava mais feio o sol... 
Porque tudo é como é e assim é que é, 
E eu aceito, e nem agradeço, 
Para não parecer que penso nisso...) 

Alberto Caeiro, O Guardador de Rebanhos - Poema XXIII
[Heterónimo de Fernando Pessoa]